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Água: o que fazer para enfrentar a escassez anunciada
Por Jorge Abrahão, presidente do Instituto Ethos

Rio+20 traz para o centro das discussões as previsões de escassez desse recurso em grande parte do mundo e busca soluções para mudar o cenário.

Entre as novidades desta Conferência das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável (Rio+20) estão os Diálogos Sociais, estruturados em dez temas-chaves para o desenvolvimento sustentável. A Conferência Ethos Internacional 2012, que será realizada entre 11 e 13 de junho, às vésperas da Rio+20, adotou esses dez temas e adaptou-os para dez oficinas-painéis que vão aprofundar a discussão sobre os desafios e sugerir soluções que serão entregues ao governo brasileiro e aos grupos de diálogo no encontro da ONU.

Estão listados temas como: energia sustentável para todos; erradicação da pobreza; corrupção e integridade; florestas e mudanças climáticas; e gestão da água. Neste comentário, vamos tratar deste último tema, porque a vida no planeta depende da água e ela é um recurso que vem se escasseando com muita rapidez.

Contexto


A água é um bem finito, como qualquer outro bem natural do planeta. Apenas 25% dela são constituídos por água doce e essa água doce, em sua maior parte, está congelada nas geleiras. Apenas 1% da água doce existente é adequada ao consumo humano e localiza-se em rios, lagos e lençóis subterrâneos de difícil acesso.

O Relatório de Desenvolvimento Humano do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) traz alguns dados alarmantes:
- Mais de 1 bilhão de pessoas não tem acesso a água potável;
- 2,6 bilhões não têm instalações básicas de saneamento (a maioria vivendo na África e na Ásia);
- metade dos leitos hospitalares é ocupado por doenças causadas pelo uso de água imprópria;
- a diarreia tira a vida de 4.900 crianças menores de 5 anos por dia.

Cada pessoa deveria ter disponíveis ao menos 20 litros de água diariamente. Mas, num mundo marcado por desigualdades, o consumo de água potável também é absurdamente desigual: enquanto um habitante de Moçambique usa, em média, menos de 10 litros de água por dia, um europeu consome entre 200 e 300 e um norte-americano, 575 (50 litros só nas descargas).

Se verificarmos o consumo por atividade humana, a agricultura é, de longe, aquela que mais usa água: 70%, contra 22% para a indústria e 8% para o uso doméstico.

Desafio do uso racional da água

A ONU aponta que a escassez de água será um dos grandes problemas – se não o maior – que a humanidade terá de enfrentar no século XXI. A Organização Mundial da Saúde (OMS) calcula que até 2050 aproximadamente 50 países enfrentarão crise no abastecimento de água. Países do Oriente Médio, China, Índia e o Norte da África já enfrentam problemas relacionados à escassez desse recurso.

Na China, o abastecimento já está no limite. A demanda agroindustrial e a população de mais de 1,3 bilhão de habitantes fazem com que milhões de chineses andem quilômetros por dia para conseguir água. Na Índia, a situação não é diferente. Com uma população que ultrapassa 1 bilhão de habitantes, o governo indiano enfrenta o esgotamento hídrico de seu principal curso d'água, o Rio Ganges.

O Norte da África, dentro de 30 anos, poderá ter reduzida em até 80% a quantidade de água disponível por pessoa. No Oriente Médio, a situação é ainda mais preocupante: prevê-se que, em países como Israel, Jordânia, Arábia Saudita e Kuwait, dentro de 40 anos só haverá água doce para consumo doméstico. Atividades agrícolas e industriais terão de fazer uso de esgoto tratado.

Mesmo o Brasil, com toda a sua imensa capacidade hídrica, poderá enfrentar problemas sérios se não cuidar da água. Uma pesquisa realizada no ano passado pela Agência Nacional das Águas (ANA) mostrou que o país vive o fenômeno do “estresse hídrico” em bacias caudalosas, como a do Rio Paraná: concentração populacional e falta de saneamento básico e de cuidado com a preservação ambiental que garante a água das nascentes e mananciais. Quando chega às cidades, a água já está poluída.

Grandes conglomerados urbanos brasileiros também já estão no limite de abastecimento de água. São Paulo, por exemplo, precisa captá-la em locais cada vez mais distantes e de qualidade cada vez pior. Mesmo quando captada em regiões distantes, praticamente selvagens, a água já chega aos reservatórios poluída por esgoto ou resíduos químicos.

Soluções para enfrentar o problema da escassez

Não existe uma solução única para resolver o fundamental problema da escassez de água. Cada bairro, cidade, país terá de encontrar o seu modo de lidar com o problema. O documento oficial da Rio+20 propõe que os governos assumam a meta de aumentar em 20% a eficiência no uso da água na agricultura, que é o setor que mais consome este recurso.

Um estudo produzido pela Globescan e pela SustainAbility fez 19 recomendações para solucionar a crise de água no mundo. Entre elas estão: investir em educação ambiental; aperfeiçoar os métodos de irrigação; aumentar o índice de reúso de água; consumir água encanada, em vez de engarrafada; captar água da chuva; inventar novas tecnologias para conservação de água; melhorar a infraestrutura para distribuição; monitorar e denunciar a poluição das águas; estabelecer preço adequado a esse recurso; e desenvolver sistemas de dessalinização mais eficientes.

As empresas também têm um “dever de casa”, que é encontrar soluções para o seu próprio consumo e que possam tornar-se políticas públicas. O Uniethos realizou uma pesquisa com as maiores empresas brasileiras em diversos setores para verificar quais as ações adotadas para a eficiência hídrica. Levantou 23 casos exemplares em setores como: alimentação; construção civil; açúcar e álcool; agropecuária; energia; saneamento; mineração; bebidas; papel e celulose; cosméticos; e siderurgia/metalurgia.

Veja alguns exemplos de práticas responsáveis das empresas em relação à água.

Cosan
Uma das maiores empresas de açúcar e álcool do mundo, a Cosan realiza o tratamento das águas residuárias por meio de um sistema de lagoas que devolve aos rios as águas tratadas, possibilitando a manutenção ambiental desse recurso natural. A empresa também inova ao investir em melhoria tecnológica na área industrial. Ao todo, 11 unidades produtoras já estão equipadas para a limpeza de cana por sopragem, sem utilização de água.

Quanto à vinhaça, resíduo do processamento de cana que vira fertilizante, a Cosan adotou um novo equipamento que permite reduzir o volume de água, aumentando de 3% para 22% o teor de sólidos. O equipamento diminuirá o volume de água desse subproduto do processamento da cana. Com capacidade para processar 140 mil litros de vinhaça por hora, o equipamento reduzirá os custos do produto até o campo, para posterior pulverização nas lavouras, e também o uso de fertilizantes químicos.

Haverá um benefício indireto, que consiste na economia de recursos hídricos, uma vez que a água residual da separação será tratada e reutilizada no processo produtivo.

Bunge
Por representar o setor que mais consome água, o agropecuário, a Bunge vem adotando, desde 2009, um bem-sucedido programa de redução de uso de água.

Para tanto, a empresa renovou sua participação nos projetos Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL) por mais sete anos, investiu para melhorar a eficiência operacional, aumentou a utilização de energia vinda de fontes renováveis e assumiu posição de vanguarda ao entrar no ainda incipiente mercado de créditos de carbono de origem florestal.

Resultado: os projetos MDL geraram cerca de 160 mil toneladas de carbono equivalente, o que representaria 77% das emissões da empresa no período, que, por sua vez, sofreram queda de 38,8% em 2010. O consumo de água teve sensível recuo e a energia vinda da biomassa atingiu 81% das necessidades operacionais. A empresa também passou a oferecer suporte técnico e financeiro para o projeto de créditos de carbono vindo de desmatamento evitado em áreas privadas no bioma da Floresta Amazônica, que poderá gerar cerca de 16 milhões de créditos de carbono.

Houve também uma drástica redução no consumo de água. Em 2009, houve queda de 15,8% e, em 2010, a redução no consumo de água atingiu 88%. Essa expressiva queda decorre, basicamente, da venda das minas para a produção de nutrientes para fertilizantes e nutrição animal. Sem tais ativos, o consumo de água na área de fertilizantes, em 2010, passou de 33,1 milhões de m3 para 248,5 mil m3. As atividades remanescentes, porém, não permitem mais o mesmo nível de reciclagem e reutilização. Contudo, a Bunge está empenhada na busca de tecnologias que permitam melhorar constantemente seu desempenho.

Alcoa
A Alcoa adotou, em âmbito mundial, a Estratégia Global de Sustentabilidade 2030 http://www.alcoa.com/brazil/pt/custom_page/reciclagem/meta_2020.asp, por meio da qual são estabelecidas metas claras e ambiciosas relacionadas a fatores como a redução do consumo de água e de energia, o reaproveitamento e a reciclagem dos resíduos e a diminuição das emissões de gases.

Uma das metas dessa estratégia é a redução de 10% da intensidade média de consumo de água em cada negócio até 2020 e de 25% até 2030, tendo como base o volume consumido em 2005. As operações brasileiras da Alcoa consumiram cerca de 3,25 milhões de m3 de água em 2009, representando uma redução de 13% em relação ao volume verificado no ano anterior.

Apesar do início das operações em Juruti (PA), que poderiam gerar um aumento no consumo de recursos hídricos, a Alcoa Brasil cumpriu, já em 2010, a meta de reduzir em 10% a intensidade média do uso de água em todas as suas áreas de negócio até 2020, tendo como base os dados de 2005. Nas fábricas de São Luís (MA) e Poços de Caldas (SP), as metas estabelecidas para 2020 já foram superadas em 2011; falta pouco para cumprir a redução estipulada para 2030.

Os resultados foram possíveis tanto por conta das iniciativas desenvolvidas com os funcionários, com foco na conservação do recurso dentro das unidades, como dos projetos implantados, que reduziram vazamentos e melhoraram a eficiência dos processos. Um exemplo foi o aumento dos ciclos de uso de água nas torres de resfriamento das principais unidades fabris. A água que antes era descartada no processo passou a ser reutilizada inúmeras vezes.

11/5/2012
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