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1º. de Maio é uma boa data para refletir sobre a agenda da sustentabilidade
Os trabalhadores devem incorporar os temas da sustentabilidade em suas reivindicações ou não será possível avançar em direção a uma nova economia.

Por Jorge Abrahão, presidente do Instituto Ethos


Será comemorado, na próxima terça-feira (1º./5), o Dia do Trabalho. No Brasil e no mundo, haverá várias manifestações para lembrar a data: festas, desfiles militares, atos políticos, shows musicais. Milhões de pessoas irão às ruas para participar dessas demonstrações, mas outros milhões ficarão em casa ou viajarão, aproveitando a “emenda” com a segunda-feira, como é o caso do Brasil.

O historiador Eric Hobsbawn escreveu um belo artigo sobre o Primeiro de Maio, ainda nos anos 1980. Nele, Hobsbawn ressaltava ser esse um feriado especial, porque é um dos poucos realmente universais, comemorado em todos os países por milhões de trabalhadores, independentemente de raça, gênero, idade, crença, afinidade política ou profissão.

Por isso, segundo o historiador, por não estar vinculado a comemorações religiosas ou militares, como a maioria dos feriados do calendário mundial, o Primeiro de Maio traz em seu cerne o vírus da fraternidade e do multiculturalismo: não importa quem você seja, você pode comemorar essa data. Não precisa nem mesmo lembrar-se de que ela foi instituída em 1889 por uma associação internacional de trabalhadores para lembrar a morte de quatro operários numa manifestação ocorrida três anos antes, em Chicago, nos Estados Unidos, em favor da jornada de trabalho de oito horas. E que sua comemoração custou a vida de outras centenas de trabalhadores até ser aceita pelos governos e integrar os calendários nacionais a partir dos anos 1920.

Neste ano de 2012, todavia, o Primeiro de Maio deveria ser uma data dedicada à reflexão a respeito da encruzilhada em que se encontra a humanidade.

Crise financeira

É bem provável que haja grandes manifestações públicas em vários países contra os programas de austeridade adotados pelos governos para combater a crise financeira. Nesses eventos, serão gritadas palavras de ordem que vão nos remeter ao sonho de uma sociedade mais justa. No entanto, a pergunta que deve ser feita é: hoje, tais palavras de ordem são suficientes para dar conta dos desafios de construir um país e um mundo melhor? A resposta é não.

A crise financeira atual cada vez mais se configura não como uma crise “das finanças”, mas do modelo de civilização. Não é apenas o neoliberalismo que está em xeque, mas todo um sistema de produção e consumo que esgota os recursos do planeta, concentra riqueza e produz miséria, exclusão e desequilíbrio ambiental. A civilização construída sobre as premissas de industrialização e crescimento contínuo não consegue mais promover o bem estar para todos. O que fazer? A resposta a esta pergunta é que está mobilizando a sociedade e os governos, com resultados até agora insuficientes para dar à humanidade um novo caminho.

O que falta para encontrarmos essa trilha?

Falta ao trabalhador e à trabalhadora incorporar os temas da sustentabilidade em suas reivindicações. Caso contrário, a nova economia, que já está sendo construída, trará consigo os mesmos problemas da “velha economia”.

Se a pauta de reivindicações sociais não gera polêmica, o mesmo não se pode falar de temas ligados ao meio ambiente e ao combate à corrupção. A jornada de oito horas de trabalho, por exemplo, ainda é uma quimera para milhões de trabalhadores no mundo, bem como salários e renda dignos. Por isso, essas questões continuam e devem continuar na pauta dos trabalhadores. Entretanto, é importante notar que há avanços, principalmente em nosso país.

Muitas empresas, no Brasil e no mundo, adotam a jornada de oito horas e vão além, avançando no cumprimento da agenda do trabalho decente da Organização Internacional do Trabalho (OIT), que preconiza trabalho adequadamente remunerado, exercido em condições de liberdade, equidade e segurança, capaz de garantir uma vida digna. Mesmo assim, ainda há muito a conquistar. Aqui no Brasil, por exemplo, as empresas vêm se mobilizando no combate ao trabalho análogo à escravidão, em favor da equidade de gênero nos quadros funcionais e no apoio a comunidades tradicionais, incluindo-as como fornecedoras e contribuindo para o seu desenvolvimento.

No entanto, no Brasil e no mundo, abraçar causas ambientais continua sendo quase um tabu para os trabalhadores. As ações dos ambientalistas ainda são entendidas como travas para o crescimento econômico, cuja adoção gera desemprego. O mal-entendido precisa acabar, porque, na nova economia, há muitos novos empregos e carreiras que serão criados para recuperar e proteger o meio ambiente, de catadores a engenheiros de parques eólicos, por exemplo.

Na Europa e nos EUA, sindicatos e ambientalistas já conversam para estabelecer agendas comuns. No Brasil, isso ainda não ocorre, com prejuízos para ambos os lados. Veja-se a votação do Código Florestal. Se sindicatos e organizações ambientalistas tivessem se unido, o resultado poderia ser outro. Afinal, ainda é no meio rural que encontramos as práticas trabalhistas mais insustentáveis.

Finalmente, existem ações em favor da transparência e de combate à corrupção nas instituições que se aplicam também à gestão sindical, não só empresarial. No Brasil, o foco dessas ações tem sido ampliar os mecanismos institucionais de controle social, para que o cidadão possa acompanhar os orçamentos e investimentos públicos. Voluntariamente, as empresas também têm buscado dar mais transparência às atividades.

É evidente que ainda há muito a fazer. O caminho rumo à sustentabilidade ainda está no início. Mas o avanço poderá ser mais rápido e bem maior se as entidades trabalhistas incorporarem o viés do desenvolvimento sustentável às suas demandas tradicionais.

Continuamos divididos por diferenças sociais, culturais, religiosas e étnicas. Mas, somos uma e a mesma humanidade, partilhando o mesmo destino. Construir uma nova civilização é tarefa de todos.

27/4/2012
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