Busca
Fred Gelli fala da natureza como inspiração para a sustentabilidade

Uma das grandes atrações da Conferência Internacional Ethos 2010 é a presença da escritora de ciências naturais Janine Benyus, consultora de inovação e criadora da biomimética, uma disciplina que busca soluções sustentáveis emulando designs da natureza. Ela fará a palestra “Integridade Ecológica”, sobre o segundo princípio da Carta da Terra.
 
Para atuar como anfitrião nessa palestra, o Instituto Ethos convidou o designer Fred Gelli, sócio–diretor de Criação da Tátil Design de Ideias, empresa de branding e design, e professor do Departamento de Design da PUC-RJ, no qual ministra os cursos de ecoinovação e biomimética.

Nesta entrevista concedida a Margarida Curti Lunetta, coordenadora da Mostra de Tecnologias Sustentáveis, Gelli fala da relevância do design no processo de inovação e da necessidade de se buscar inspiração nos processos naturais para o desenvolvimento de tecnologias sustentáveis.

Instituto Ethos: Como inovações em design podem ajudar a promover o desenvolvimento sustentável?
Fred Gelli: Em minha opinião, o design terá a cada dia um papel mais estratégico no processo de redesenho da nossa relação com o planeta, com o consumo, com o bem-estar. A profissão de designer é a  que tem a conexão mais natural com “inovação”, por ser uma atividade essencialmente multidisciplinar. Costumo brincar com os meus alunos da PUC que o designer é o cara que não conhece profundamente nada! E nem deveria… Nós temos que conhecer “quem conhece” e simplesmente promover a aproximação dos saberes. Hoje, a maioria dos desafios com o quais nos deparamos na direção de um modo de vida sustentável exige abordagens multidisciplinares. E aí o designer entra como um “agente catalisador”, conectando “saberes”, gerando inovação.

IE: Em sua opinião, que equívocos são cometidos por empresas e agências de comunicação em nome da sustentabilidade?
FG: Basicamente, a grande maioria das empresas já entendeu que precisa, de alguma forma, conectar-se com o grande movimento pela sustentabilidade, e a pressão nessa direção vem de todos os lados –  dos consumidores, das novas leis, da concorrência etc. O problema é que as empresas acreditam que, para se tornarem “verdes”, basta seguir uma cartilha básica, que inclui coisas como trocar o papel virgem por reciclado nos escritórios, plantar árvores, eventualmente mandar um dinheirinho pra uma ONG qualquer e, claro, fazer muita propaganda disso tudo… Isso, na verdade, produz muito poucos resultados. Os consumidores (prefiro “desfrutadores”, mas isso é outra história) percebem que essa estratégia é vazia e a credibilidade das marcas vai embora. As pesquisas mostram que quase 80% das pessoas não acreditam em uma só palavra do que as marcas dizem quando o tema é sustentabilidade. E, o que é o pior, as marcas que de fato têm projetos consistentes entram no mesmo saco! É aí que entra nossa visão do Branding 3.0, que propõe uma abordagem de branding para a construção de um caminho sustentável legítimo para as marcas, fundamentado na essência de cada uma [saiba mais sobre o Branding 3.0 no blog http://www.branding30.com.br].

IE: É possível encontrar soluções para os problemas das metrópoles estudando o funcionamento de ecossistemas e outros elementos naturais?
FG: Eu acredito profundamente que sim! A natureza esta aí, há 4 bilhões de anos, aprimorando “projetos” com variáveis supercomplexas que são fonte inesgotável de inspiração para o novo modelo de ocupação do planeta que temos que desenhar. E o que é melhor: é totalmente “copyleft”. Você não precisa pagar direitos autorais pra ninguém. É só copiar. As inspirações se iniciam numa dimensão mecânica, pela qual podemos aprender a embalar, estruturar, espalhar etc. com os inúmeros “projetos” muitíssimo bem-sucedidos da natureza. E também existe um espaço enorme para a busca de inspiração em uma dimensão mais filosófica, mais estratégica. Nós, por exemplo, na Tátil, estamos desenvolvendo um projeto em parceria com a FGV de Curitiba sobre bionegócios que nada mais é do que entender como a natureza faz negócios! Entendemos que todos os ecossistemas são grandes ambientes de negócios, nos quais troca de energia e matéria acontece o tempo todo entre os vários indivíduos e espécies que os compõem. São negócios em que todos ganham. Negócios com ciclo fechado e, naturalmente, com toda uma “lógica” por trás completamente sustentável! Estamos estudando os bancos de corais, buscando inspirações exatamente para situações que vivemos nas metrópoles, como sistemas de comunicação, descarte de resíduos, superpopulação etc.

IE: O Brasil está atrasado ou avançado em pesquisas e projetos na área da biomimética?
FG: Infelizmente, muito me surpreende que o mundo pareça estar atrasado em pesquisas na área da biomimética. Existem apenas projetos e profissionais isolados envolvidos em iniciativas dessa natureza. Por outro lado, sinto que existe uma conexão quase que instintiva a essa abordagem quando a lógica da bioinspiração é apresentada para plateias de um modo geral. Sinto isso a cada palestra que faço sobre esse assunto. Acredito que em breve os mundos acadêmico e empresarial irão acordar para essa fonte de inspiração revolucionária, que representa um fabuloso atalho para o grande desafio de nos tornarmos sustentáveis neste planeta.

IE: Quais são os maiores obstáculos que enfrentamos para a adoção de um modelo de produção e consumo mais sustentável?
FG: Primeiro, acho que a perda de conexão entre homem e natureza gera essa miopia aguda na nossa visão de prioridades, na formulação dos nossos conceitos de bem-estar, crescimento etc. A ganância também tem sido um grande obstáculo, manifestada na tentativa desesperada de extrair as últimas gotas de lucro de modelos de negócios “bandeirosamente” ineficientes e altamente agressivos à vida. É claro que nossa capacidade de nos reproduzirmos e nos adaptarmos a todos os ambientes da Terra também faz da espécie humana uma “praga” no planeta, dificultando muito a visualização de um modo de vida que viabilize o bem-estar de quase 7 bilhões de indivíduos de uma forma sustentável. Mas sou otimista e acho que nós somos uma “praga” genial! E, por conta disso, com um temperinho biológico do instinto de sobrevivência gritando nos nossos ouvidos que, na verdade, o que está em risco não é o planeta, mas a nossa permanência nele, iremos nos superar e teremos a chance de transformar toda essa crise em oportunidade, abrindo frente para uma grande revolução no mundo dos negócios apoiado pela “danada” da tecnologia que a própria mãe natureza nos fez capaz de inventar!

Por Margarida Curti Lunetta e Benjamin S. Gonçalves (Instituto Ethos)

  • iacc
  • Cidades sustentáveis
  • Consocial
  • jogos limpos
  • Cadastro de Empresas Pró-Ética
  • Fórum Clima
  • Trabalho Escravo