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Programas querem transformar jovens em empreendedores
Saber colocar uma idéia em prática, com responsabilidade ecológica, econômica e social é coisa de gente experiente. Requer anos de estudo, preparo especializado e, não raro, consultorias caras. Correto? Em parte. Programas estão apostando na garra e na vontade de fazer acontecer de jovens ao redor do mundo. Eles lhes oferecem o capital inicial e apoio de equipes multidisciplinares para que desencadeiem as mudanças sonhadas, no próprio local onde vivem.

Um dos grandes exemplos nessa área é o Geração Muda Mundo, programa que surgiu nos Estados Unidos, em 1996, com o nome de Youth Venture, por iniciativa da Ashoka, uma organização mundial pioneira no trabalho e apoio aos empreendedores sociais, e hoje é desenvolvido em 14 países.

O próprio termo “empreendedor social” foi uma inspiração do fundador da Ashoka, Bill Drayton. Ele conta que, em viagens pelo mundo, admirava-se com a criatividade e a capacidade de empreender de pessoas que resolviam melhorar situações muito adversas em suas comunidades. Imaginou então angariar fundos para apoiar esses empreendedores, que na maioria dos casos atuavam como voluntários e se viam divididos entre as contas a pagar em seu dia-a-dia e sua iniciativa social.

Executivo de longa data e conhecedor das dificuldades de lançar novos empreendimentos, Drayton estruturou uma rigorosa seleção, em que cada candidato já é apoiado por especialistas em negócios para dar à sua iniciativa um planejamento de longo prazo. Os empreendedores são selecionados por uma banca de avaliação e recebem, em seguida, uma bolsa de quatro anos para dedicar-se exclusivamente a seu projeto e multiplicá-lo em locais com desafios semelhantes. .

A fórmula deu tão certo que chamou a atenção de grandes apoiadores. Entre eles, o fundador do eBay, Pierre Omidyar, que provocou Drayton, perguntando-lhe: “Se você tivesse US$ 1 milhão, o que mais desejaria realizar?”. A resposta estava pronta: estender o programa de empreendedores sociais a jovens, a partir dos 14 anos. A parceria foi firmada e assim nasceu o programa Youth Venture.

No Brasil, o programa Geração MudaMundo apoiou, desde o seu lançamento, em agosto de 2006, mais de 740 empreendimentos sociais liderados e gerenciados por mais de 3.000 jovens em cerca de 35 cidades, nos Estados do Ceará, Minas Gerais, Santa Catarina e São Paulo.

Mudança de cultura

Antônio Carlos de Matos, gerente de Consultoria do Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas de São Paulo (Sebrae-SP), pontuou em entrevista ao jornal digital Carreira & Sucesso que o ensino formal nas escolas costuma formar o aluno para ser empregado. “Nós acreditamos que há pelo menos uma segunda alternativa: a de ser empregador”, defende.

Por isso, o Sebrae investe desde cedo na mudança de mentalidade, para que o jovem acredite em seu potencial realizador. Entre várias iniciativas nesse sentido, a entidade desenvolveu o Programa Jovens Empreendedores – Primeiros Passos, destinado a crianças e jovens de 7 a 14 anos, do nível de ensino fundamental. Nele, utilizam-se recursos lúdicos para despertar entre os jovens o interesse pela criação de seu próprio negócio. 

Além disso, desde 2004 o Sebrae firmou um convênio com a Confederação Nacional dos Jovens Empresários (Conaje) para capacitar seus associados em três cursos: o Empretec, de 18 horas de duração; o Iniciando um Pequeno Grande Negócio, de 30 horas; e o Programa de Excelência em Liderança, de 82 horas.

A Junior Achievment é outra instituição de destaque focada no potencial jovem. Ela é a maior e mais antiga organização de educação prática em economia e trabalha para despertar o espírito empreendedor nos jovens, proporcionando uma visão clara do mundo dos negócios desde o ensino fundamental. Ela criou, entre outros, o Programa Empresário Sombra por um Dia*, no qual jovens acompanham um dia de trabalho de um profissional.

Outro agente que tem se destacado no apoio a jovens empreendedores é a Artemísia, uma organização internacional voltada para o desenvolvimento de negócios sociais, isto é, empreendimentos que utilizam os mecanismos de mercado usuais – tradicionalmente focados em acumular riqueza – para resolver ou minimizar desigualdades socioeconômicas.

Por cinco anos, a organização selecionou jovens com idéias inovadoras, concedendo-lhes o capital inicial para oficializar suas iniciativas e apresentando-os a estudantes de administração e de economia para auxiliá-los na elaboração de seus planos de negócio e no acompanhamento de seu desempenho. Nesse caso, o selecionado precisa passar a gerar sua própria renda, como um empresa, mas com o compromisso de reinvestir todo o lucro obtido na própria iniciativa. No programa, ele aprende a dominar ferramentas de gestão e recebe apoio jurídico e contábil.

A organização está revendo sua atuação este ano e promete novidades. Enquanto isso, está promovendo os Start-Up Labs, em conjunto com o The Hub, em São Paulo. Trata-se de um encontro em que os empreendedores expõem suas idéias em 5 minutos e ouvem feedbacks do público, que inclui especialistas convidados. É uma forma de testar idéias e obter dicas e orientações sem nenhum custo. O próximo Start-Up Lab acontecerá no dia 23 de junho, às 20h00, na Rua Bela Cintra, 409, em São Paulo, sede do The Hub.

O próprio The Hub é um local que reúne inovadores sociais em um galpão reformado de 500m2. Funciona como um espaço colaborativo, com toda a infraestrutura para trabalhos profissionais e eventos, que pode ser utilizado apenas algumas horas por mês ou até para “varar a noite”, como seus organizadores explicam ao defini-lo como um “escritório do futuro para incubar as organizações do futuro”.

Guerreiros sem Armas

Outra ação bastante inovadora no aproveitamento do potencial de ação dos jovens é a chamada “tecnologia social” dos Guerreiros sem Armas, criada pelo Instituto Elos Brasil. Ela reúne durante um mês cerca de 60 jovens entre 18 e 30 anos de idade, de diferentes origens, para trabalhar em uma comunidade – um centro cultural, uma praça ou uma creche, por exemplo –, onde irão conceber e executar um projeto usando recursos e talentos locais e buscando atender a uma necessidade real dos moradores. O mesmo instituto organiza jovens em gincanas cooperativas, nas quais durante cinco semanas eles criam e viabilizam um projeto desafiador escolhido por determinada comunidade.

A Universidade Livre do Meio Ambiente e da Cultura de Paz (Umapaz), em São Paulo, também tem incentivado o protagonismo juvenil, por meio dos cursos Gaia Jovem e Jovens da Terra, que utilizam dinâmicas e vivências para ampliar a compreensão das mudanças que estão ocorrendo em seu território e no planeta e despertar o potencial transformador de seus participantes.

Também a interação mundial tem sido incentivada por programas como o KaosPilots (Pilotos do Caos), que recebe estudantes do mundo todo e os organiza em equipes que elaboram e executam projetos para gerar melhorias socioambientais num ponto do planeta que elas próprias escolheram. É uma iniciativa certa para quem tem sempre novas idéias “pulando” na cabeça, quer levar sua criatividade a dar um passo adiante e tem paixão por desempenhar uma liderança socialmente responsável em ambientes organizacionais, como definem seus criadores.

A resposta e os resultados desses programas têm sido notáveis. Ao sentir o espaço para sua expressão e suas próprias escolhas, os jovens têm revelado uma disposição surpreendente para agir em conjunto e construir mudanças positivas no mundo. A indisciplina ou rebeldia desaparecem quando eles percebem que as angústias e dúvidas são comuns tanto entre eles próprios quanto entre os adultos, que todos, afinal, têm necessidades iguais a ser atendidas e que tudo fica mais fácil somando-se as habilidades e talentos.

“No Gaia Jovem, eu descobri minha força”, disse Angélica de Oliveira Soares, então com 18 anos, no encerramento da turma de que participou. “Descobri que posso fazer as coisas de um jeito diferente e sem desanimar por ver que muita gente ainda não tá nem aí.”

Por Neuza Árbocz (Envolverde) / Edição de Benjamin S. Gonçalves (Instituto Ethos)

* Errata: Na primeira distribuição desta matéria, divulgamos erroneamente que o Programa Empresário Sombra por um Dia era promovido pelo Sebrae.
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